Comece contando ao dono, com educação e com detalhes: a maioria das pessoas cujo cachorro late enquanto elas estão fora não faz ideia. Mantenha um registro simples de datas, horários e duração. Se conversar não funcionar, o síndico ou a administradora é o passo seguinte no condomínio, mediação depois, e a lei (perturbação do sossego, direito de vizinhança) é o último recurso. Aparelhos ultrassônicos e apps de apito apontados para o cachorro dos outros raramente funcionam e podem piorar um cachorro ansioso.
Como puxar o assunto?
Parta do princípio de que ele não sabe. “Acho que você não deve ter percebido, mas quando você sai por volta das oito ele late a manhã quase inteira” cai de um jeito muito diferente de um bilhete na porta reclamando do barulho. Ofereça o que você observou: quando começa, quanto dura, o que parece disparar. Isso é útil para ele, porque um cachorro que late sozinho está entediado, de guarda ou ansioso, e o padrão diz qual é.
Por que anotar?
Porque “o dia inteiro” não é prova e “das 9h10 às 9h55 em seis das últimas sete manhãs” é. Um registro mantém a conversa nos fatos, mostra se as coisas melhoram, e é a primeira coisa que o síndico, um mediador ou um juiz vai pedir. Um caderno basta. Anote a data, o início, o fim, e o que dava para perceber.
E se conversar não resolver?
- Síndico ou administradora. Em condomínio, é o caminho formal: reclamação por escrito, com o registro. A convenção e o regimento interno costumam prever advertência e multa por perturbação do sossego, e o Código Civil sustenta isso.
- Mediação. Muitos tribunais de justiça e alguns condomínios oferecem mediação gratuita. Funciona mais do que as pessoas esperam, porque entrega ao dono um plano em vez de uma reclamação.
- A lei. Latido excessivo e repetido pode ser perturbação do sossego (art. 42 da Lei das Contravenções Penais) e uso anormal da propriedade (art. 1.277 do Código Civil). Os detalhes estão no guia Lei do silêncio e cachorro latindo. O registro é o que torna qualquer reclamação aproveitável.
- Maus-tratos. Um cachorro deixado no quintal o dia todo no sol ou na chuva, ou sem água, é caso de bem-estar animal, não de barulho. Procure a Polícia Militar, a Polícia Civil ou o órgão de proteção animal do seu município.
E se for casa de rua, sem síndico?
O caminho encurta: conversa, registro, e depois mediação ou a lei. Os tribunais de justiça mantêm centros de mediação (os CEJUSCs) que atendem conflitos de vizinhança de graça, e muitas cidades têm núcleos de mediação comunitária. Se nada disso andar, o boletim de ocorrência por perturbação do sossego e o Juizado Especial Cível são as portas seguintes, e nas duas o que decide é o registro de horários, não a indignação.
Devo comprar um aparelho ultrassônico ou usar um app de apito?
Desaconselhamos, e nós fazemos um app de latido. Os estudos publicados sobre repelentes ultrassônicos são fracos: num deles, nenhum aparelho afastou todos os cachorros em nenhum ajuste, e cães-guia em outro simplesmente notaram e ignoraram. Relatos de donos são cara ou coroa, e o efeito costuma sumir em dias. Um celular nem consegue produzir ultrassom.
Tem o cachorro para pensar também. Se o latido vem de medo ou isolamento, um som desagradável sem explicação vindo do outro lado do muro só acrescenta. O DogHush também não foi feito para essa situação: ele responde a um cachorro numa voz que ele conhece, de dentro da própria casa, coisa que um vizinho não tem como dar.
Dá para ajudar o vizinho a resolver?
Muitas vezes, sim. Compartilhe o que anotou. Indique um guia sobre cachorro que late quando fica sozinho. Se o cachorro é dócil e o dono topar, uma visita de passeador no meio do dia muda mais do que qualquer aparelho.
Fontes
- Blackshaw, J. K. et al. (1990). Aversive responses of dogs to ultrasonic, sonic and flashing light units. Applied Animal Behaviour Science 25. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/016815919090064K
- Moxon, R., Allison, A., England, G. (2010). Effect of ultrasonic devices on the distraction behaviour of guide dogs. International Journal of Orientation & Mobility 3(1). https://reference-global.com/article/10.21307/ijom-2010-003
- Summerfield, J., DVM. Getting Used to Things, or Not: Habituation vs. Sensitization. AVSAB. https://avsab.org/getting-used-to-things-or-not-habituation-vs-sensitization/
- ASPCA. Common Dog Behavior Issues: Barking. https://www.aspca.org/pet-care/dog-care/common-dog-behavior-issues/barking
- Decreto-Lei nº 3.688/1941 (Lei das Contravenções Penais), art. 42. Planalto. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3688.htm
- Lei nº 10.406/2002 (Código Civil), arts. 1.277, 1.336 e 1.337. Planalto. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm
Este guia é informação geral sobre comportamento canino, não orientação veterinária. Uma mudança repentina no latido, ou latido com sinais de sofrimento, é motivo para procurar o veterinário.