Aparelhos antilatido ultrassônicos interrompem alguns cachorros nas primeiras vezes, e a maioria para de responder em dias ou semanas. No único teste controlado de aparelhos comerciais, nenhum afastou todos os cachorros em nenhum ajuste. A VCA os descreve como em geral nem desagradáveis o bastante nem consistentes o bastante para serem um dissuasor confiável, e entidades veterinárias os classificam como aversivos: funcionam, quando funcionam, por serem desagradáveis.
O que diz a evidência?
- Blackshaw et al., 1990: três aparelhos ultrassônicos, 60 a 75 dB entre 7 e 45 kHz, testados em 15 cachorros. “Nenhum aparelho afastou todos os cachorros.” Alguns mostraram aversão; outros ignoraram.
- Moxon et al., 2010: cães-guia expostos a repelentes ultrassônicos notaram e continuaram trabalhando.
- Nenhum teste de caixa ou coleira ultrassônica ativada por latido aparece nas revistas de comportamento veterinário. As porcentagens de eficácia das páginas de venda não levam a nenhuma publicação.
Por que para de funcionar?
Um som estranho e repentino faz quase qualquer animal pausar. Se nada vem depois, o cachorro aprende que aquilo não significa nada; isso é habituação, e donos costumam relatar em dias. O próprio conselho do AKC sobre essas ferramentas é desligar o aparelho quando não precisa, senão o cachorro se acostuma com o som. Um número menor de cachorros vai para o outro lado e fica mais ansioso com sons em geral, o que a veterinária comportamentalista Jennifer Summerfield descreve como sensibilização.
Atravessa parede ou muro?
Mal. Som de alta frequência é direcional e é absorvido e refletido por superfícies sólidas muito mais do que o som grave, e é por isso que você ouve o grave do vizinho e não o agudo. Um aparelho apontado para um cachorro atrás de uma parede ou de um muro está falando sobretudo com a parede. E a audição também não está do seu lado: cachorros ouvem melhor por volta de 8 kHz, e a sensibilidade deles cai rápido acima de 20 kHz.
É cruel? É seguro?
Eles são projetados para ser desagradáveis, o que os torna aversivos, e a American Veterinary Society of Animal Behavior recomenda só métodos com recompensa. A British Veterinary Association diz que se preocupa com o potencial de aparelhos sônicos e ultrassônicos causarem sofrimento, reconhecendo que a pesquisa é escassa. A bioeticista Jessica Pierce observa que os fabricantes que ela contatou não conseguiram apresentar estudos de segurança. Três problemas práticos vêm disso:
- Disparam em todo cachorro ao alcance, inclusive o quieto, os filhotes e os animais do vizinho.
- Disparam com outros sons, então o cachorro não consegue entender o que causa aquilo.
- Não fazem nada sobre por que ele late. Um cachorro assustado continua assustado.
E usar um no cachorro do vizinho?
Desaconselhamos. Você não vê a reação do cachorro, pode estar acrescentando estresse a um animal que late de solidão, e a evidência diz que provavelmente não vai funcionar de qualquer jeito. A caixinha em formato de casa de passarinho pendurada no muro, a mais comum no Brasil, tem os mesmos problemas da versão de mão, com um agravante: fica ligada o dia todo, disparando nos cachorros de todas as casas ao alcance, inclusive os que nunca latiram. Sem falar que, se descoberto, vira briga de vizinho, e não ajuda em nada numa conversa com o síndico. Aqui está o que funciona.
O que usar no lugar?
Descubra a causa, controle o gatilho, e ensine um comando de silêncio com recompensa. Um som se torna útil quando tem um significado que você ensinou: é a diferença entre um sinal e um castigo, e é assim que o DogHush usa som, repetindo a sua palavra treinada quando o seu cachorro late (o app é em inglês; a voz é a sua). Para as versões em coleira, veja alternativas à coleira antilatido; para apps de celular, app de apito para cachorro funciona?
Fontes
- Blackshaw, J. K. et al. (1990). Aversive responses of dogs to ultrasonic, sonic and flashing light units. Applied Animal Behaviour Science 25. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/016815919090064K
- Moxon, R., Allison, A., England, G. (2010). Effect of ultrasonic devices on the distraction behaviour of guide dogs. International Journal of Orientation & Mobility 3(1). https://reference-global.com/article/10.21307/ijom-2010-003
- VCA Animal Hospitals. Barking in Dogs. https://vcahospitals.com/know-your-pet/barking-in-dogs
- American Kennel Club. Bark Control Tools to Help Stop Nuisance Barking. https://www.akc.org/expert-advice/training/bark-control-tools-to-help-stop-nuisance-barking/
- British Veterinary Association. Policy position on electric shock collars and training aids. https://www.bva.co.uk/take-action/our-policies/electric-shock-collars-and-training-aids/
- Pierce, J. (2020). Are Ultrasonic Dog Training Devices Really Safe and Humane? Psychology Today. https://www.psychologytoday.com/us/blog/all-dogs-go-heaven/202001/are-ultrasonic-dog-training-devices-really-safe-and-humane
- Summerfield, J., DVM. Getting Used to Things, or Not: Habituation vs. Sensitization. AVSAB. https://avsab.org/getting-used-to-things-or-not-habituation-vs-sensitization/
- Heffner, H. E. (1983). Hearing in large and small dogs. Behavioral Neuroscience 97(2). Values as compiled by Louisiana State University. https://www.lsu.edu/vetmed/deafness/hearingrange.php
- American Veterinary Society of Animal Behavior. Humane Dog Training Position Statement, 2021. https://avsab.org/wp-content/uploads/2021/08/AVSAB-Humane-Dog-Training-Position-Statement-2021.pdf
Este guia é informação geral sobre comportamento canino, não orientação veterinária. Uma mudança repentina no latido, ou latido com sinais de sofrimento, é motivo para procurar o veterinário.